GS 43Constituição Pastoral
Gaudium et Spes
O Concílio exorta os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que procurem cumprir
fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastamse da verdade os
que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que vamos em demanda da
futura (13), pensam que podem por isso descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a
própria fé ainda os obriga mais a cumprilos, segundo a vocação própria de cada um (14). Mas não
menos erram os que, pelo contrário, opinam poder entregarse às ocupações terrenas, como se
estas fossem inteiramente alheias à vida religiosa, a qual pensam consistir apenas no cumprimento
dos actos de culto e de certos deveres morais. Este divórcio entre a fé que professam e o
comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo.
Já no Antigo Testamento os profetas denunciam este escândalo (15); no Novo, Cristo ameaçouo
ainda mais veementemente com graves castigos (16). Não se oponham, pois, infundadamente, as
actividades profissionais e sociais, por um lado, e a vida religiosa, por outro. O cristão que
descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o
próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna. A exemplo de Cristo que exerceu um mister de
operário, alegremse antes os cristãos por poderem exercer todas as actividades terrenas, unindo
numa síntese vital todos os seus esforços humanos, domésticos, profissionais, científicos ou
técnicos com os valores religiosos, sob cuja elevada ordenação, tudo se coordena para glória de
Deus.
As tarefas e actividades seculares competem como próprias, embora não exclusivamente, aos
leigos. Por esta razão, sempre que, sós ou associados, actuam como cidadãos do mundo, não só
devem respeitar as leis próprias de cada domínio, mas procurarão alcançar neles uma real
competência. Cooperarão de boa vontade com os homens que prosseguem os mesmos fins.
Reconhecendo quais são as exigências da fé, e por ela robustecidos, não hesitem, quando for
oportuno, em idear novas iniciativas e leválas a realização. Compete à sua consciência
prèviamente bem formada, imprimir a lei divina na vida da cidade terrestre. Dos sacerdotes,
esperem os leigos a luz e força espiritual. Mas não pensem que os seus pastores estão sempre de
tal modo preparados que tenham uma solução pronta para qualquer questão, mesmo grave, que
surja, ou que tal é a sua missão. Antes, esclarecidos pela sabedoria cristã, e atendendo à doutrina
do magistério (17), tomem por si mesmos as próprias responsabilidades.
Muitas vezes, a concepção cristã da vida inclinálosá para determinada solução, em certas
circunstâncias concretas. Outros fiéis, porém, com não menos sinceridade, pensarão
diferentemente acerca do mesmo assunto, como tantas vezes acontece, e legitimamente. Embora
as soluções propostas por uma e outra parte, mesmo independentemente da sua intenção, sejam
por muitos fàcilmente vinculadas à mensagem evangélica, devem, no entanto, lembrarse de que a
ninguém é permitido, em tais casos, invocar exclusivamente a favor da própria opinião a
autoridade da Igreja. Mas procurem sempre esclarecerse mutuamente, num diálogo sincero,
salvaguardando a caridade recíproca e atendendo, antes de mais, ao bem comum.
Os leigos, que devem tomar parte activa em toda a vida da Igreja, não devem apenas impregnar o
mundo com o espírito cristão, mas são também chamados a serem testemunhas de Cristo, em
todas as circunstâncias, no seio da comunidade humana.
Quanto aos Bispos, a quem está confiado o encargo de governar a Igreja de Deus, preguem
juntamente com os seus sacerdotes a mensagem de Cristo de tal maneira que todas as actividades
terrenas dos fiéis sejam penetradas pela luz do Evangelho. Lembremse, além disso, os pastores
que, com o seu comportamento e solicitude quotidanos (18), manifestam ao mundo o rosto da
Igreja com base no qual os homens julgam da força e da verdade da mensagem cristã. Com a sua
vida e palavra, juntos com os religiosos e os seus fiéis, mostrem que a Igreja, com todos os dons
que contém em si, é só pela sua simples presença uma fonte inexaurível daquelas virtudes de que
tanto necessita o mundo de hoje. Por meio de assíduo estudo, tornemse capazes de tomar parte no
diálogo com o mundo e com os homens de qualquer opinião. Mas sobretudo, tenham no seu
coração as palavras deste Concílio: «Dado que o género humano caminha hoje cada vez mais para
a unidade civil, económica e social, tanto mais necessário é que os sacerdotes em conjunto e sob a
direcção dos Bispos e do Sumo Pontífice, evitem todo o motivo de divisão, para que a humanidade
toda seja conduzida à unidade da família de Deus» (19).
Ainda que a Igreja, pela virtude do Espírito Santo, se tenha mantido esposa fiel do Senhor e nunca
tenha deixado de ser um sinal de salvação no mundo, no entanto, ela não ignora que entre os seus
membros (20), clérigos ou leigos, não faltaram, no decurso de tantos séculos, alguns que foram
infiéis ao Espírito de Deus. E também nos nossos dias, a Igreja não deixa de ver quanta distância
separa a mensagem por ela proclamada e a humana fraqueza daqueles a quem foi confiado o
Evangelho. Seja qual for o juízo da história acerca destas deficiências, devemos delas ter
consciência e combatêlas com vigor, para que não sejam obstáculo à difusão, do Evangelho.
Também sabe a Igreja quanto deve aprender com a experiência dos séculos, no que se refere ao
desenvolvimento das suas relações com o mundo. Conduzida pelo Espírito Santo, a Igreja mãe
«exorta sem cessar os seus filhos a que se purifiquem e renovem, para que o sinal de Cristo brilhe
mais claramente no rosto da Igreja» (21).
Ajuda que a Igreja recebe do mundo